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Estratégias urbanas para evitar enchentes em tempos de crise climática

Lições que o mundo precisa parar de ignorar: o caso do Rio Grande do Sul. É urgente a necessidade de pensar e falar sobre estratégias urbanas para prevenir e reduzir o impacto de alagamentos e enchentes em tempos de crise climática. 


O que está acontecendo no Rio Grande do Sul não é um evento isolado; é um triste lembrete da crescente frequência e intensidade das calamidades climáticas que enfrentamos.


Temos de nos preparar para lidar com eventos cada vez piores, ao mesmo tempo em que precisamos de grupos de linha de frente para ajudar na reconstrução


O recente desastre causado pelas chuvas intensas no estado demonstra a urgência da adoção de medidas eficazes para reduzir alagamentos em áreas urbanas.


Neste artigo, exploraremos estratégias urbanas que podem ajudar a mitigar os impactos das enchentes.


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Repensar os lugares de risco para habitação


A primeira estratégia é reconhecer os lugares que não podem mais ser habitados por conta da mudança no comportamento das chuvas e realocar as cidades e as pessoas. 


O comportamento das chuvas mudou. Eu tenho feito um levantamento e já percebi que de 2013 pra frente nós [o Estado do RS] temos um acumulado de precipitação [chuvas] no mês de mais de 300 mm. A minha pergunta é: o que nós, por exemplo, na Defesa Civil, temos programado para prever essas possibilidades? Em algum momento, vamos começar a ver [inundações] em áreas em que a água não chegava com tanta frequência e vamos lembrar disso que estamos falando aqui.”⁠


⁠As palavras acima foram ditas pelo ecólogo Marcelo Dutra da Silva, doutor em Ciências e professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), quase dois anos antes da tragédia que se abateu sobre o Estado nos últimos dias.⁠


⁠O alerta foi dado durante um debate sobre mudanças climáticas, e o pesquisador chamava atenção para o fato de que muitas cidades gaúchas estavam totalmente despreparadas para chuvas extremas: não sabiam quais eram suas áreas de risco, quais regiões eram vulneráveis a inundações, ou quem seriam os primeiros moradores do Estado a serem atingidos pelas águas.⁠

Diante da tragédia que se abateu sobre o RS desde o início das chuvas torrenciais, no começo do mês de maio, o pesquisador agora propõe um plano de ação bem diferente para o RS:


“Não adianta querer reconstruir tudo o que foi destruído nesse evento de agora, tentando fazer como era antes. Isso já não dá mais”.⁠

A reconstrução do Rio Grande do Sul, diz o acadêmico, precisará ser planejada considerando quais as áreas mais seguras e resistentes às variações climáticas extremas, que vieram para ficar.⁠


⁠”Cidades inteiras vão ter de mudar de lugar. É preciso afastar as infraestruturas urbanas desses ambientes de maior risco, que são as áreas mais baixas, planas e úmidas, as áreas de encostas, às margens de rios e as cidades que estão dentro de vales."⁠


⁠Leia a entrevista completa do ecólogo no https://www.bbc.com/portuguese



cidades provisórias
Foto: Luiza Castro / Sul21

Cidades provisórias ou campos de refugiados climáticos?


No entanto, fazemos aqui o alerta de que esse planejamento precisa ser articulado e aprofundado em soluções permanentes. O que estamos vendo acontecer, porém, é o governo de Porto Alegre querendo criar cidades provisórias para os desabrigados das enchentes, o que entendemos como uma alternativa que não é viável como uma solução de fato!


Por que as cidades provisórias não são viáveis? É simples: levar as pessoas para lugares afastados, sem acesso à escolas/creches, transporte público, postos de saúde e até mesmo saneamento básico. Ou seja, ampliar o sofrimento de quem já está sofrendo, enquanto existem imóveis na área urbana que podem ser redirecionados para essas pessoas.


Na verdade, as cidades provisórias são uma forma bonita de chamar "campos de refugiados climáticos". Saiba mais sobre isso aqui. O que as pessoas precisam é de soluções sólidas, permanentes e bem estruturadas!


⁠Precisamos de gente preparada para lidar com os desastres quando eles ocorrem


Ao mesmo tempo em que trabalhamos no desenvolvimento de estratégias de prevenção, não podemos ignorar o fato de que o desequilíbrio climático está em curso e vamos sentir suas consequências. 


Enchentes, secas prolongadas, ondas de calor, elevação do nível do mar… tudo isso já está previsto há muito tempo, então não há sentido em contarmos com a sorte. 


Cabe aqui o recorte de classe, gênero e raça:


A população mais afetada por esse tipo de situação é preta, pobre e periférica. Isso não é um acidente ou uma casualidade: é uma evidência da falência do nosso sistema de organização social que alimenta a desigualdade em busca do lucro máximo e que explora os recursos naturais e humanos como se fossem infinitos e um planeta finito. 


Nós, a sociedade civil, podemos sim nos organizar para prestar socorro, mas precisamos também pressionar o poder público e as grandes empresas, que são os principais responsáveis pela devastação do meio ambiente, a raiz do problema que gera essas tragédias, para que se responsabilizem. 


Somos muitos, movemos o mundo através da nossa força de trabalho e esse poder não pode ser ignorado.


No curto prazo: precisamos ter processos e equipes treinadas para lidar com alagamentos quando eles ocorrem: socorristas, uma lógica de distribuição de água, alimentos e outros insumos para desalojados. Nós temos visto isso muito mobilizado pelo povo, porém para garantir a sustentabilidade no longo prazo essa responsabilidade precisa ir para as mãos corretas.


É fundamental que o Estado e a iniciativa privada tenham uma proposta clara e destinem recursos nesse sentido, garantindo uma resposta rápida e eficiente diante de situações de emergência.


enchente no Rio Grande do Sul
Foto: Gustavo Mansur / Palácio Piratini


Como podemos pressionar o poder público e a iniciativa privada? 


  • Conscientizando cada vez mais pessoas para que não se associem (não comprem e não incentivem de maneira nenhuma) a empresas que não cumprem seu papel social. 

  • Monitorando como agem políticos com relação às pautas ambientais; aqui, as redes sociais e os grupos nos quais estamos inseridos são formas de disseminar informações sobre como os candidatos nos quais votamos se posicionaram em relação a determinados projetos, endossando ou boicotando importantes demandas.

  • Votando em políticos que realmente se comprometem com a questão ambiental, com projetos sólidos, e não apenas reativos aos desastres ambientais em casos extremos, ou ainda pior, negacionistas.


Construir o futuro com colaboração


Passado o momento de crise, precisamos construir outro futuro: um problema coletivo pede por soluções colaborativas. 


Cooperação e parcerias


A colaboração entre governos, comunidades, empresas e organizações da sociedade civil é essencial para enfrentar os desafios dos alagamentos urbanos. 


Isso pode envolver a criação de comitês de gestão de riscos, a realização de planos de emergência e a promoção de parcerias público-privadas para financiar e implementar projetos de infraestrutura resilientes.


Zoneamento e planejamento urbano


Um planejamento urbano inteligente é crucial para reduzir o risco de alagamentos. 


Isso inclui o zoneamento adequado das áreas de risco, evitando a ocupação de áreas sujeitas a inundações e incentivando a construção de edifícios resilientes às águas. 


Além disso, é importante preservar as áreas de recarga de aquíferos e as zonas úmidas, que desempenham um papel vital na regulação do ciclo da água.


Infraestrutura verde


Investir em infraestrutura verde é fundamental para absorver o excesso de água durante as chuvas.


Isso inclui a criação de parques, jardins de chuva, áreas de infiltração e telhados verdes, que ajudam a retardar o escoamento da água e a reduzir a pressão sobre os sistemas de drenagem.


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Melhoria do sistema de drenagem


Atualizar e expandir o sistema de drenagem urbana é essencial para lidar com grandes volumes de água durante tempestades.


Isso envolve a limpeza regular de bueiros e canais, a construção de novas galerias pluviais e a implementação de tecnologias de drenagem sustentável, como pavimentos permeáveis ​​e valas de infiltração.


A manutenção desses sistemas é fundamental, visto que presenciamos as consequências e os incontáveis danos devido à falta de manutenção da bombas de drenagem, como é o exemplo de Porto Alegre.


Educação e conscientização


A educação pública sobre o manejo adequado da água e a conscientização sobre os riscos de alagamentos são fundamentais para promover uma cultura de prevenção e resiliência. Isso pode incluir campanhas de sensibilização, treinamentos de resposta a emergências e programas de educação ambiental nas escolas e comunidades.


A crise atual no Rio Grande do Sul destaca a necessidade urgente de adotar estratégias urbanas para reduzir os alagamentos em tempos de chuva, não apenas no RS, mas em todo o Brasil. Ao investir em infraestrutura verde, melhorar o sistema de drenagem, planejar o uso do solo de forma inteligente, educar a população, escolher governantes conscientes e promover a cooperação entre diversos atores, podemos criar cidades mais resilientes e preparadas para enfrentar os desafios das mudanças climáticas.


Agora é o momento de agir e implementar medidas concretas para proteger nossas comunidades e o meio ambiente.


Como apoiar as vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul?


Nós fizemos um artigo com esse foco e com várias organizações confiáveis de apoio, além de outras orientações sobre voluntariado. Saiba mais aqui.


Compartilhe esse artigo para que chegue em mais pessoas! Avante. 💛


Este artigo foi criado de forma colaborativa entre as mulheres Késsile Tanski, Barbara Lang e Roberta Pschichholz.


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